O choro no chuveiro

O choro no chuveiro, no volante, nos momentos em que estamos com nós mesmos… Choramos, sim. Diante de nós e quando percebemos e sabemos da luta diária, sim, o choro vem.

A luta de seguir em frente, acreditar e continuar, chegada uma hora em que isto já não é opção, é caminho, faz parte.

Os discursos dos demais vão perdendo sentindo, as realidades, as razões e os valores vão se distanciando e se distanciando das suas, você escuta os outros e parece que as vozes sobre as realidades vão ficando longe e longe, e cada vez mais longe, até que muitos a gente passa a não alcançar mais; alcançar ou caber, não sei. E, você ficando em um outro universo, um espaço difícil de o outro entrar e caber. O espaço é preenchido. Por aflições, angústias, dúvidas e medos que não se pode explicar, nunca, pela sensação de incompreensão e de que não se fez entender. Às vezes, para acolher um paciente de doença crônica, só um outro paciente.

O choro vem…

Vem quando pensamos em como lidar com os medos e as angústias de não saber como e onde o corpo de um paciente de doença autoimune está sendo atacado, o que está acometendo este corpo em silêncio.

Vem quando é necessário explicar as letras miúdas do seu tratamento, o que significa ser imunossuprimido, ou para você o que significaria não ser.

Vem quando dá um medo absurdo de olhar o resultado do exame do filho para saber se ele carrega o mesmo anticorpo que você. E quando a resposta é sim, então…a casa cai.

Vem quando é preciso decidir um procedimento.

Vem quando se sabe que efeitos existem, mas que não tratar condena o presente.

Vem quando te olham dizendo: “mas você nem parece ser doente”.

Vem quando o seu corpo não reage a nada, dores permanecem, sintomas permanecem, fadiga… E você já não sabe mais o que fazer, inchada de medicamentos, com medo da morfina e o futuro batendo à sua porta, chamando-a. Você quer viver, mas os sintomas…

Vem quando você não tem nenhuma definição quanto ao amanhã, só o hoje e muitos preferem desperdiçar o hoje deles e o seu, e isso perto de você.

Não são fáceis as decisões, todo iniciar traz uma história, sim, sempre, mas a sua vem recheada ainda de uma contação de detalhes sobre a sua patologia.

É angústia, é aflição, é normal… Tem que existir, sim. Estranho seria se não existisse.


Luciana Ribeiro

Luciana Ribeiro, paulistana, apaixonada por Santos, 45 anos, casada, mãe da Nadja e da Mayra. Contadora, diretora da empresa Zloti Assessoria empresarial Ltda., diretora da empresa FAZ - Sistema de Gestão e Treinamentos Profissionalizantes Ltda. e Presidente do Instituto Eluar, com muito orgulho. Paciente de Espondilite Anquilosante e com ela adora fotografar.

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